
O mercado de streaming no Brasil está a passar por uma mudança estrutural impulsionada pelo comportamento estratégico dos utilizadores. Com a proliferação de plataformas e o aumento sucessivo nos preços das mensalidades, os consumidores abandonaram o modelo de fidelidade a longo prazo para adotar o “rodízio de assinaturas”. Esta prática consiste em manter apenas um ou dois serviços ativos simultaneamente, cancelando-os após maratonar conteúdos específicos para assinar um concorrente no mês seguinte. Segundo dados do setor, esta tendência reflete uma tentativa do público de equilibrar o orçamento doméstico sem abrir mão do acesso a lançamentos exclusivos, forçando as empresas a repensarem as suas estratégias de retenção de clientes.
Esta redefinição do mercado tem levado as gigantes do setor, como a Netflix, a Disney+ e a Max, a investir em novos modelos de negócio para combater a rotatividade, conhecida tecnicamente como churn. Entre as soluções mais comuns estão o lançamento de planos mais baratos com publicidade e a oferta de pacotes agregados (bundles) com outras operadoras de telecomunicações ou serviços de retalho. Além disso, as plataformas estão a apostar em calendários de lançamento semanais, em vez de disponibilizarem temporadas inteiras de uma só vez, numa tentativa de manter o subscritor ligado ao serviço por mais tempo. O objetivo é criar uma dependência contínua através de conteúdos desportivos em direto e produções locais que gerem conversas sociais prolongadas.
Para o futuro, a tendência é que o mercado brasileiro se torne ainda mais fragmentado e competitivo. A conveniência de ter todo o catálogo disponível num só lugar, que marcou o início da era do streaming, deu lugar a uma busca por curadoria e valor percebido. Especialistas indicam que as plataformas que não conseguirem oferecer uma experiência de utilizador fluida ou que falharem na entrega de conteúdos originais de impacto perderão espaço nesta nova economia da atenção. O “rodízio” não é apenas uma questão financeira, mas uma demonstração de que o poder de escolha está agora, mais do que nunca, nas mãos do utilizador, exigindo que o streaming se comporte cada vez mais como a televisão tradicional em termos de publicidade, mas com a flexibilidade digital que o público já não dispensa.
Fonte: Olhar Digital

